terça-feira, 3 de novembro de 2009

Crack: A situação está fora de controle

Por Milton Jung

Em um único dia, acompahando o infernal mundo do crack e seus efeitos sobre a população de rua. Inacreditável, contei 35 brigas, parte em discussões verbais, parte em agressões físicas. Brigas fortes, algumas de tirar sangue. É preocupante, pelo menos metade delas podia ter chegado ao homicídio. O que seria, indiscutivelmente, mais um massacre. Quando a cidade fecha pelas ruas do centro, aos fins de semana, em plena luz do dia, insurgem em estado de zumbis, completamente transformados e transtornados .Principalmente na região da Luz, mas não é só.
O que outrora era termo pejorativo agora é fato, realmente a Cracolândia existe, hoje espalhada pelo país afora.

Está tudo fora de controle.

A incidência do vício entre os moradores de rua, é disparadamente maior, o grau de vulnerabilidade da rua não pode mais ser considerado médio como se faz nas conferências municipal, estadual e, principalmente, nacional de assistência social.

A segurança pública falhou, mas é também um caso de saúde. No caso dos moradores de rua, é resultante das falhas de tudo, de todas as políticas existentes e até da falta de afeto. O ponto alto porém é a falta de perspectivas.

Na caminhada que fiz entre os craqueiros, encontrei pessoas amigas, muita gente que reconhecemos e tantas outras que nos conhecem. O motivo, o mesmo, perderam as esperanças na vida, não aguentam mais discussões e debates e ações paliativas vadevindas de todas as partes.

Poder público, movimentos sociais, defensores de direitos humanos, polícia, guarda municipal, a sociedade num todo. Tem que mudar os modos de discutir os problemas, as questões, debate por debate, troca de ofensas, acusações e desmentidos, não funcionam mais. As pessoas estão cansadas, os moradores de rua estão saturados e não aguentam mais tanto bate rebate.

Essa droga empesteada, ta destruindo o Brasil, ta destruindo o Rio de Janeiro e vai avassalar São Paulo feito um tornado.

É caso de polícia ? O que podem fazer os policiais ? Prender ? Prender quem ? Onde, pra que ? O que podem fazer a Guarda ? bater ? Em quem ? Com que finalidade ?

O que podem fazer os defensores dos direitos humanso ? Defender como ? Quem ? De quê ?

Se faltam abrigos, se faltam estímulos, se faltam alternativcas de saídas, de melhorias de vida, de mudanças de um mundo melhor, que o mundo invisível, caminhara para o túnel, sem saída, um poço cada dia mais sem fundo,

É caso de coerência e bom senso.

Saúde, assistência, segurança pública, tudo isso falra e muito mais, falta de devolver oportunidades, de estudar, de trabalhar, de morar, de entender a vida em tempos de capitalismo. Não são as moedas sociais, não são as missas e cultos, não são as algemas da lei que vão devolver de volta o gosto pela vida. Isso sim está faltando. As pessoas que moram nas ruas precisam, carecem recuperar o gosto pela vida, de ter oportunidades, de poder sonhar e lutar pela vida como todo e quaquer cidadão de bem.

E não consigo mencionar da forma ajustadinha “pessoa que mora em situação de rua”, por isso digo como dizia nos meus tempos de “morador de rua”, no mínimo pessoa que mora na rua, e não é uma questão de terminologia, de palavras bonitas. O que tem que ser pensando e resolvido são as formas de se dar condições de as pessoas querendo, poder sair da rua, tocar a vida em frente, pensar a vida pós rua, pós albergue, a vida pós rede de acolhida.

Sem desespero, sem medo da fome, sem medo do despejo, sem medo de ser feliz. É disso que a rua precisa, de condições de vida digna.

Infelizmente, o crack tende a assombrar a nossa cidade, a nossa querida São Paulo; tende a assombrar famílias e pessoas sós; o mundo das drogas e o dessa praga do crack, é mais um caminho para a destruição das pessoas, das vidas, dos sentimentos.
A situação está, sim, infelizmente fora de controle.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Motorista de caminhão usa mais cocaína

Consumo é 4 vezes maior do que entre média da população, diz USP

A cocaína é o novo "rebite" dos caminhoneiros. Pesquisa divulgada ontem pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo aponta que a droga vem sendo usada no lugar das anfetaminas para manter os motoristas acordados por mais tempo. Entre os entrevistados, o consumo foi até quatro vezes maior do que o identificado na população brasileira.

O levantamento ouviu aleatoriamente 308 motoristas que circulavam por quatro rodovias federais no Rio e São Paulo e constatou que 3,5% deles haviam usado cocaína. A urina foi analisada e os dados mais alarmantes foram encontrados na Fernão Dias, região de Atibaia, interior de São Paulo: 4,5% dos caminhoneiros abordados haviam consumido cocaína.

Entre os brasileiros em geral, 0,3% admitiu ter usado a droga no último mês, consumo mapeado pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) em entrevista com 7 mil pessoas. "É evidente que esse motorista vai colocar em risco a vida de outras pessoas", afirma a médica Vilma Leyton, coordenadora da pesquisa da USP. A cocaína e a anfetamina atuam no sistema nervoso central, alterando a percepção do motorista, reduzindo a atenção e os reflexos.

Para Flávio Pechansky, pesquisador do Núcleo de Estudo e Pesquisa em Trânsito e Álcool da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, o consumo de cocaína entre caminhoneiros é ainda mais grave porque esses condutores passam 70% do tempo nas estradas. "Ele faz coisas que não faria se estivesse sóbrio, age impulsivamente."

A substituição da anfetamina pela cocaína tem explicações na estratégia do tráfico. "Os caminhoneiros são iludidos pelas promessas dos efeitos mais fortes da cocaína do que do rebite, que dizem deixar a pessoa acordada por mais tempo ", afirma o presidente da Associação Brasileira de Logística e Transporte de Carga, Newton Gibson. A droga é apresentada como fórmula para fazer com que 90 horas dirigindo pareçam mais curtas.

"Não é um uso generalizado, mas está ligado às condições de trabalho, principalmente entre os que não têm vínculos com a empresa", afirma José da Fonseca Lopes, presidente da Associação Brasileira de Caminhoneiros. "Tanto que as drogas são mais presentes no setor de transporte de carga de eletroeletrônicos, formado por motoristas com menos de 30 anos, que fazem do caminhão um bico", diz. "Uma parte é obrigada a fazer a rota São Paulo/Belém, antes de seguir para Manaus, em 64 horas. O mínimo suportável seriam 96 horas", completa Lopes, que já ouviu relatos de um motorista que deixou de fazer trajetos mais longos porque não suportava ficar tanto tempo sem a droga.

A carga horária excessiva é criticada pelo diretor da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego, Alberto Sabaag. "Prefiro que ele consuma alguma substância e chegue vivo, do que durma ao volante." Marcelo Pereira, consultor da Associação Brasileira de Educação no Trânsito, cita as características da profissão como outro fator para o vício. "Caminhoneiro vive sozinho, não consegue participar da vida familiar. Isso os deixa mais vulneráveis à sedução da droga."

A lei seca prevê as mesmas punições para quem dirige embriagado ou sob o efeito de droga, mas o bafômetro só detecta álcool. "O poder público teria que encontrar uma nova forma de fiscalização", afirma o inspetor-chefe da Polícia Rodoviária Federal, Márcio José Pontes.


Fonte: O Estado de S. Paulo - 11/09/09

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Metade dos pacientes da 1ª clínica pública para dependentes é viciada em mais de uma droga

Levantamento realizado com 96 pacientes recebidos pela Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas de São Bernardo, ligada à Secretaria de Estado da Saúde, mostra que 48% deles apresentam dependência em mais de uma substância. As mais comuns são cocaína, crack, maconha, álcool e cigarro. O levantamento mostra o perfil dos internos que passaram pela clínica desde sua inauguração, em março deste ano. A unidade é a primeira clínica pública para dependentes de álcool e drogas do Brasil.

Dos 96 pacientes, 37% apresentaram grau de dependência grave de álcool e 30% leve. Em 38% dos casos, os pacientes apresentaram grau de problemas relacionados ao uso de drogas em nível severo. Apenas 2% apresentaram nível leve. Dos 96 pacientes em tratamento, 75% tiveram alta clínica e apenas 3% abandonaram o tratamento.

Socialmente, o levantamento aponta que 41% dos internados estavam desempregados e 55% deles é solteiro; 30% possui o ensino médio completo e 7% ensino superior completo; 29% possui renda familiar entre 2 e 3 salários mínimos e 21% acima de 5 salários mínimos.

A idade média dos pacientes é 34 anos. Entre as comorbidades, o transtorno afetivo bipolar, os transtornos de personalidade, a depressão recorrente, a esquizofrenia, o jogo patológico, o transtorno de déficit de atenção e a hiperatividade são as patologias mais freqüentemente associadas.

“A predominância de usuários de múltiplas substâncias se deve também ao fácil acesso a essas drogas hoje em dia. O perfil destes pacientes é extremamente marcado pela impulsividade e compulsão das mais diversas (sexo, jogos, compras). São os chamados dependentes cruzados, onde cada droga entra num contexto de aliviar o estado causado pela outra, como, por exemplo, excitação e calmaria”, afirma a diretora clínica da unidade, Alessandra Diehl.

O tratamento é gratuito e os pacientes são encaminhados pelos prontos-socorros, UBS, serviços ambulatoriais, enfermaria psiquiátrica de hospital geral ou Caps (Centros de Atenção Psicossocial). Os pacientes recebem tratamento multidisciplinar, que conta com terapeutas ocupacionais, nutricionista, educador físico, psiquiatras, psicólogos, conselheiros em dependência química, enfermagem, serviço social, entre outros.

UNIAD

Crack é uma das drogas que mais causa dependência

O crack, um subproduto da cocaína, é uma das substâncias com maior potência de indução do usuário a dependência, segundo Erikson Furtado, psiquiatra, professor da FMRP (Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto) e coordenador do ambulatório de álcool e drogas do HC (Hospital das Clínicas).

"A nicotina presente no cigarro, por enquanto, é a de maior potência. É capaz de induzir à dependência um em cada três usuários. Mas ela não chama tanta atenção por não causar tantas alterações num curto prazo. O crack tem potência para induzir a dependência em um em cada três ou quatro indivíduos."

O crack propicia a liberação rápida de dopamina, um neurotransmissor que ativa regiões do cérebro que levam à dependência. As reações de quem fuma variam muito. O usuário pode tanto ficar muito eufórico como se sentir perseguido. Para os dependentes, o tratamento costuma ser longo e não há sucesso sem muita persistência, disse o psiquiatra.
Autor: Editoria Folha Ribeirão
OBID Fonte: Folha de São Paulo